Cidadãos indigentes

Hoje em dia as pessoas perderam sua própria identidade, tornaram-se vítimas de um sistema auto-destrutivo.  Vivemos em sociedade e assim sendo temos o dever de seguir as regras do jogo, porém somos influenciados por um sub-sistema, que é paralelo ao capitalismo. O sistema capitalista é o que mais se adequou à nossa sociedade desde que o homem se deixou tomar  pelos seus egos.  Infelizmente não podemos fugir dessa realidade, sobreviver ao capitalismo é uma necessidade. Mas a questão é usar o sistema contra o sistema, ao invés ser vítima do mesmo. O homem, por sua própria natureza, tem o instinto de adaptar-se ao meio, porém nos tempos atuais é difícil diferenciar o meio do qual vivemos e que é real daquilo que é na verdade uma grande ilusão, efêmero.  Embora sejamos meros animais racionais, a nossa vida gira em torno do mundo material. Desde o momento em que acordamos, passando por todos os momentos do dia, até a hora de dormir, estamos de alguma forma ligados e envolvidos por coisas materiais de todos os tipos. Não podemos fugir nem renunciar à muitas dessas coisas que fazem parte do nosso dia-dia. Não podemos viver sem relógio, pois temos a hora certa de chegar ao trabalho, de levar e buscar os filhos na escola. Seria inviável não ter um forno ou fogão em casa e evitar comer fora, pois plantar para o consumo próprio requer espaço e tempo que muitas vezes não possuímos. Temos que nos vestir adequadamente para freqüentarmos lugares diferentes, por tanto temos que ter a roupa certa para o trabalho, e outra para as horas de lazer. Hoje em dia poucas as pessoas “se dão ao luxo” de não ter um aparelho telefônico, pois na maioria das vezes necessitamos de disponibilidade imediata para o trabalho, a família, os amigos… E se por acaso nos tornamos incomunicáveis, corremos o risco inclusive de perder o emprego, fazendo com que a vida social comece a entrar em colapso, aliás, são diversos os motivos que desestabilizam a vida social, e logo temos que dar um jeito no problema a fim de nos adequarmos novamente ao meio.  É esse o X da questão!  Até que ponto temos que nos adaptar ao meio para sobrevivermos?

O nosso instinto é de sobrevivência, é daí que surge nosso poder de adaptação.  Sobreviver em nosso meio atual significa adaptar-se ao sistema, e isso significa não poder gozar da nossa plena liberdade, significa ter que aceitar que o trabalho faz parte da vida humana e não podemos evitar este fato, embora sejamos animais e necessitemos apenas de nos alimentar para sobrevivermos, tendo para isso todo o planeta cheio de terras férteis das quais ninguém é realmente dono. Adaptar-se ao sistema significa ter que obedecer às leis criadas pelos homens, mesmo que você não concorde com elas. Adaptar-se ao sistema significa um monte de coisas que não tem significado algum!

Existem alguns princípios básicos para a sobrevivência em nosso meio atual. Primeiramente você deve saber que o dinheiro é a base de tudo, e você precisará dele para suprir suas necessidades básicas. Ah não ser que você seja herdeiro de alguma fortuna ou tenha uma renda provinda de alguma fonte da qual não necessite fazer nada além de recebê-la, você terá que trabalhar para conseguir dinheiro. Para arrumar um trabalho pelo qual receba o suficiente para suprir as tais necessidades básicas, você precisará apenas estar vivo e saudável. Com o salário que receberá você terá que suprir as tais necessidades básicas, como comprar ou alugar um imóvel, vestimentas, pagar todos os impostos e se alimentar. Assim a sociedade irá vê-lo como um cidadão. Isso é o suficiente para sua sobrevivência.

Porém… Partindo destes princípios você já sabe que terá que exercer alguma função, que provavelmente ocupará a maior parte do seu dia, em no mínimo cinco dos sete dias da semana, pela maior parte de sua vida. Sendo assim é aconselhável que você escolha uma profissão que lhe agrade, para isso você terá que se especializar e estudar para tal ainda quando jovem. Por falar em jovem, vamos voltar um pouco no tempo, levando em consideração que os princípios aqui mencionados referem-se a um “manual de sobrevivência” direcionado à vida adulta.

Quando criança, sua personalidade será criada nos sete primeiros anos de vida, tendo como base o meio em que viverá, na maioria das vezes sobre influência de seus pais. Na infância você descobrirá o mundo em que vive e surgirão os primeiros questionamentos à respeito da vida, assim como os primeiros desejos materiais. Você não será culpado pelos seus desejos pois não estará agindo com a consciência desperta, serão apenas os primeiros reflexos das influências do sistema capitalista. Tudo dependerá da forma como seus pais ou responsáveis irão lhe educar, assim você saberá o que é certo e errado, e o que é necessário ou apenas futilidade. Mas viver é uma arte que poucos tem o prazer de dominar, até porque para os demais, ir de encontro ao domínio dessa arte significa abrir mão de todo o prazer que a vida oferece. Sendo assim, é bem provável que seus pais já se encontrem no fluxo do sistema. Você irá estudar em algum colégio, e fará amigos, e trocará experiências, e essas experiências serão uma síntese do sistema em que vivem. Seus amigos lhe convencerão a querer uma infinidade de coisas materiais, e se você não tiver muitas delas, será diferente dos demais, se sentirá excluído do ciclo social em que se encontra. Na adolescência seus desejos se tornarão mais fortes e você provavelmente irá ouvir muitos “não” de seus pais. A justificativa para tal resposta será a falta de dinheiro para realizar àquilo que fora pedido. Você terá que optar muitas das vezes por abrir mão de certa atividade para poder exercer outra, como escolher entre o futebol ou a natação. Você terá também que escolher entra o vídeo game ou a bicicleta, e assim por diante… Você provavelmente não terá tudo àquilo que desejar. Se tornará uma pessoa cheia de desejos, e algumas ou muitas decepções/frustrações, se tornará um capitalista!  Se seus pais tiverem boas condições financeiras você se espelhará neles, caso contrário você buscará um caminho diferente dos mesmos para alcançar tais condições. Isso, junto às influências dos amigos, experiências de vida e aspirações, irão contribuir para a escolha da profissão na fase adulta. Então você optará por um curso de nível superior e pode não estar muito certo de sua escolha, isso acontecerá com a maior parte de seus amigos. A partir do momento em que você entrar para a Universidade, você pertencerá ao seleto grupo de pessoas que compõem a classe intelectual do país. O que representa a grande minoria da população em países em desenvolvimento como o Brasil. Neste meio você terá a oportunidade de encontrar pensadores, filósofos e rebeldes (com causa) que questionarão mais a fundo as questões da vida. Para minimizar a pressão que receberá sobre as responsabilidades e deveres da fase adulta você encontrará também o auxílio de drogas dos mais diversos tipos. Você poderá se deparar com elas em qualquer fase da vida, mas no meio universitário é que geralmente as pessoas passam à consumi-las, principalmente o álcool em excesso, que por sua vez esta relacionado também com parâmetros sociais, mais do que pessoais. Com o canudo debaixo do braço e uma formação acadêmica no currículo, você buscará pela melhor vaga de trabalho disponível em sua área.

Agora, aqueles simples princípios básicos de sobrevivência citados acima, onde você precisaria apenas de um emprego do qual receberia um salário para suprir suas necessidades básicas,  se tornaram complexos. Se o ponto de partida fosse a vida adulta seria mais fácil, você teria capacidade de analisar os fatos com a mente desperta e tendo como referência seu próprio instinto de adaptação! Porém, até que você se torne adulto, já terá sido bombardeado por um mundo de ideias e opressão, no instante em que estará indefeso, aprendendo a viver e absorvendo como referencial o próprio sistema.

Salve as exceções!! Algumas pessoas conseguem levar uma vida paralela ao fluxo, são cidadãos e cumprem com suas obrigações como tal, mas não se apegam ao que a sociedade impõe e seguem vivendo, enquanto a grande massa segue sobrevivendo. Algumas se despertam para este fato na fase adulta, outras, ainda na adolescência já tendem a seguir este caminho, essas pessoas vivem num universo paralelo e infiltrado dentro do sistema! Mas para a maioria das pessoas, a tendência é ir cada vez mais ao fundo no fluxo destrutivo.  E são influenciadas por um sub-sistema, que hoje em dia já se confunde com o próprio.

O sistema, por sua própria natureza, induz ao consumismo. Mas este sub-sistema lhe diz que consumir compulsivamente não é o suficiente, depende do que você consome é claro, pois na verdade, nos tempos atuais, estamos perdendo a nossa própria identidade por conta deste mecanismo. A sociedade criou modismos e tendências, e hoje consumimos desde decoradores à psicólogos que irão nos dizer aquilo que é certo ou errado. O ser-humano esta perdendo sua capacidade de raciocínio, de se autoanalisar. E continua cada vez mais se entregando ao que lhe tira a personalidade. 60 mil pensamentos por dia, informações dos mais diversos tipos, muita informação, e pouca capacidade de interpretação.

Até que ponto temos que nos adaptar? Parece que nesse novo milênio, nessa nova era, mais pessoas estão conseguindo se libertar, despertar sua consciência, e ir de encontro ao que é real e válido, digno de ser vivido enquanto experiência de vida! Você já se perguntou porque faz as coisas que faz, porque leva a vida que leva, porque gosta das coisas que gosta, e porque não faz as coisas que queria fazer?? Talvez você não seja você mesmo.

Uma resposta em “Cidadãos indigentes

  1. Num texto onde encontro muitas percepções que deveriam ser compartilhadas – não no sentido de compartilhar para “socializar”, mas de “questionar” – e absorver geral, daqueles que me identifico, que me consomem positivamente tentando entender os alcances na construção do texto. Chegou um dado momento que me rendi e ri sozinho com alcance do cara:

    “Adaptar-se ao sistema significa um monte de coisas que não tem significado algum!”
    Thiago Rocha

    Muito bom parceiro, muito bom!

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